sábado, 25 de agosto de 2018

Vácuo...

sexta-feira, 23 de março de 2012

Sim

Pois seria tolice negar que em algum momento eu te amei. Ou melhor, nós nos amamos. Erros. Muitos erros. Desde o início.

O meu som era diferente do seu. A minha bebida era diferente da sua. O seu cigarro era diferente do meu. As suas roupas, trapos.  Pensei: talvez com tantas diferenças você me complete.

Mais um erro: tinhamos objetivos diferentes. Olhavamos o mesmo mar, o mesmo por-de-sol e alguma coisa não se encaixava. Seus olhos castanhos amarelavam. Meus olhos pretos, engraçado, ficavam castanhos. Eu te assimilava.

Noite: vamos sair? Claro! Onde? Aqueles bares? Tá bom! Você bebia. Bebia, bebia, bebia. Dizia: Vou ali e volto. Voltava sim. Quase caindo. E eu sentado. Sem essa de “TE PERDOO POR TE TRAIR”. Você voltava cheirando a cachaça, a bebida barata. Vapor barato, baby!

Dinheiro? Você nunca tinha e eu sempre tinha que bancar, Do alcool, do cigarro, dos taxis e até mesmo sua droga barata com cheiro de bosta de vaca queimada.

Vamos para uma Dancing Club. Gente conhecida. Você no balcão. Eu, claro, me acabando de dançar. E avisos próximos: Cuidado. Você pode ser vítima de um golpe. Nunca tive medo de gente, bicho, fantasmas e exús.

Aprendi a gostar de você.

Desavenças, mais mentiras, mais problemas, projetos interrompidos, frustações, mais mentiras.

E eu gostantando de você até que passei a ser mais eu. Te dei todas as chances. Tentei equilibrar. Músicas, filmes, poesia, ficar mais em casa. Enquanto isso, você fazia o inverso do que eu pedia. As equações não funcionaram…

Agora, agora, agora é tarde. Estrebucha baby.

Te quero bem.

Te quero bem. Mas te quero não mais tão próximo a mim. Sou bipolar, tenho PMD, sou irresponsável, doido, e segundo alguns, inteligente pra porra! Só faço o que gosto.

Se tentar reconquista, vai ser difícil. Não entro em jaulas. Não crio jaulas. Sou livre, sou solitário, potencialmente suicida, extremamente sacana, totalmente pervertido, cínico, crítico, abusado, fora dos trilhos, a cobra do meu próprio paraíso, sou único, sou singular, sou eu, sou Marco.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Texto CLARICE LISPECTOR

Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade. Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei. Clarice Lispector

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Por que os professores não se revoltam?

Marilene Felinto
Escritora e jornalista.

O jornal era um desses que anunciam concursos públicos, oportunidades de emprego, vagas para isto e aquilo outro. Era uma edição de fevereiro deste ano. Em mais de uma matéria, anunciavam-se concursos públicos para professores em diversas prefeituras. A prefeitura de Louveira, por exemplo, interior de São Paulo, 80 quilômetros da capital, havia aberto inscrições para diversos cargos, entre os quais, professor. Salvo erro do jornal, os salários anunciados eram: professor de educação de jovens e adultos, 723,39 reais por 20 horas semanais; ensino fundamental, 909,04 reais por 20 horas semanais; professor de ensino médio, 1.094,69 reais por 25 horas semanais.

Comparei os salários oferecidos a um professor com aquele oferecido a um coveiro, 654,40 reais por 40 horas semanais, para cujo cargo as inscrições também estavam abertas na prefeitura de Louveira. Um professor de educação infantil, categoria 1, por exemplo, ganharia, portanto, apenas 68,99 reais a mais do que um coveiro.

Todo mundo sabe que professor se mata de trabalhar para aumentar a carga horária e ganhar um pouco mais. E que a carga horária de um professor é, por natureza, mais pesada do que a de qualquer outra profissão. É quatro vezes maior: ele tem o trabalho de preparar a aula (o que significa, muitas vezes, ter que estudar o assunto, ainda que a maioria não o faça sempre), dar a aula e se relacionar pessoalmente com os alunos (tarefa árdua e inglória) e, por último, corrigir as lições dos alunos. Especialmente nas classes de educação infantil, “dar a aula” implica um desgaste físico e psicológico incalculável.

É preciso antes dizer que a questão não está localizada nesta ou naquela prefeitura. A desvalorização da profissão de professor é fenômeno nacional e mundial. O salário oferecido ao professor pelos governos estaduais e municipais Brasil afora (e mesmo pela maioria das escolares particulares) é uma humilhação sem precedentes na história dessa profissão.

Foram vários os estágios da minha indignação ao constatar a aproximação entre o professor de educação infantil (o mais desvalorizado de todos!) e o coveiro – o mais profundo desses estágios foi a lembrança de dona Helena e dona Cremilda, minhas primeiras professoras, respectivamente no jardim-de-infância, quando eu tinha 5 anos de idade, e da antiga 1ª série primária, quando eu tinha 6 anos. As imagens não-borradas dessas duas mulheres são das lembranças mais nítidas que guardo da minha história escolar. Atravessam mais de quatro décadas já sem nenhuma mancha, sem nenhum amarelão de fotos velhas: dona Helena é como se fosse ontem, uma mulher gigante, a mais alta mulher do mundo na minha visão de menina sentada nas cadeiras azuis e rosa da sala de aula, as mesas quadradas de mesma cor. Dona Helena atravessa os tempos impregnada do cheiro de plástico da minha lancheira cor-de-rosa, ela tocando com suas mãos enormes o meu caderno de caligrafia, o meu bloco de desenhos. Dona Helena foi a primeira pessoa que me elogiou na vida! Ora, eu me lembro disso como quem se lembra da primeira grande felicidade que experimentou, ou da primeira grande dor que sentiu, do primeiro corte na pele, do primeiro sangue que escorreu. É da mesma ordem de grandeza, é marcante assim. É tão forte como também foi dona Cremilda, de uma delicadeza sofrida, passando de carteira em carteira a desferir certo ou errado com golpes firmes de caneta vermelha nos nossos cadernos de meninas de um colégio de freiras em Recife. Dona Cremilda tinha cheiro de borracha e ponta de lápis – ela foi a mulher mais importante da minha vida porque foi ela quem me ensinou, mesmo tão profundamente triste como ela me parecia ser, que era preciso conhecer e saber, que era preciso acertar e errar para viver.

Não se pode diminuir a função social de nenhuma profissão. Não seria inútil discutir se o coveiro é tão importante quanto o professor ou se este é mais importante do que o juiz ou o médico numa sociedade. Mas o que me interessa aqui é o professor. Ao tratar do menosprezo pelos professores na Alemanha, Adorno, no seu estudo “Tabus acerca do Magistério” (em Educação e Emancipação), trata do que ele chama deformation professionelle (deformação profissional), o nome que a sociologia dá ao que resulta na desvalorização profissional. Adorno discute longamente algumas dimensões da “aversão em relação à profissão de professor”.

Ele indica que o menosprezo de que o professor é alvo tem raízes feudais. “A opinião pública não leva a sério o poder dos professores, por ser um poder sobre sujeitos civis não totalmente plenos, as crianças”, afirma o filósofo. “O poder do professor é execrado porque só parodia o poder verdadeiro, que é admirado” (o poder do juiz, do médico, do engenheiro etc.).

E vai enumerando as razões que levam ao preconceito contra a profissão, entre as quais: 1. “O problema da inverdade imanente da pedagogia estaria em que o objeto do trabalho é adequado aos seus destinatários, não constituindo um trabalho objetivo motivado objetivamente.” 2. “Por trás da imagem negativa do professor encontra-se o homem que castiga (…). Esta imagem representa o professor como sendo aquele que é fisicamente mais forte e castiga o mais fraco” (função que continua a ser atribuída ao professor mesmo depois que oficialmente deixou de existir). 3. “Repete-se na imagem do professor algo da imagem tão afetivamente carregada do carrasco. Que este imaginário é exitoso em firmar a crença de que o professor não é um senhor, mas um fraco que castiga (…) pode ser comprovado de maneira drástica no plano erótico. Por um lado, ele não tem função erótica; por outro, desempenha um grande papel erótico para adolescentes deslumbrados, por exemplo. Mas na maioria dos casos apenas como objeto inatingível (…). A característica de ser inatingível associa-se à imagem de um ser tendencialmente excluído da esfera erótica. Numa perspectiva psicanalítica, esse imaginário do professor relaciona-se à castração. (…) Esta imagem do quase castrado, da pessoa neutralizada ao menos eroticamente, não livremente desenvolvida, esta imagem de pessoas descartadas na concorrência erótica, corresponde à infantilidade real ou imaginária do professor.” 4. “A infantilidade do professor apresenta-se pela sua atitude de substituir a realidade pelo mundo ilusório intramuros, pelo microcosmo da escola, que é isolado em maior ou menor medida da sociedade dos adultos” – reuniões de pais e similares são modos desesperados de romper esse isolamento.

Por que os professores não se revoltam contra essa burrice social que os relega a segundo plano, a salários miseráveis? O assunto é complexo, como se vê, a carga simbólica pesa sobre as costas desses profissionais. Mas quando torço por uma revolta de professor não é via greve, instrumento de pouco ou quase nenhum efeito como se tem visto no decorrer dos anos. Quem sabe a revolta já esteja mesmo em curso – branca e silenciosa como na notícia que li, há uns meses, sobre a falta de professor no mercado de ensino brasileiro. Contava-se que daqui a alguns anos (vinte, talvez, não me lembro), não haverá mais professor para ensinar se a coisa continuar como anda hoje – parece que ninguém mais quer ser professor. Cada vez menos gente surge para ocupar as vagas que só aumentam. Será talvez a revolução possível, de dentro para fora, sem que uma ordem social seja derrubada pela força – antes (e apenas) pela frustração profunda, pela humilhação insustentável.

Fonte: Caros Amigos nº 84 (Março de 2004)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Saúde mental - Rubem Alves

 
Rubem Alves
"Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei.
Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia.Eu me explico.Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se.Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.

Pensar é uma coisa muito perigosa... Não, saúde mental elas não tinham... Eram lúcidas demais para isso.Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata.Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental.Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvir falar de político que tivesse depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra denomina-se software, "equipamento macio". Hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades "espirituais" - símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software.

O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o programa mais importante é a linguagem.

Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software.Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam.

Não se conserta um programa com chave de fenda.Porque o software é feito de símbolos e, somente símbolos, podem entrar dentro dele.Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção!
Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio:
A música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou... Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, "saúde mental" até o fim dos seus dias.

Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes.

A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música... Brahms, Mahler, Wagner, Bach são especialmente contra-indicados. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Tranquilize-se há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago?

Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.

Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal.
Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram..."
"Sobre o tempo e a eternidade" Campinas: Ed. Papirus, 1996.

domingo, 18 de julho de 2010

Saudade

Você poderia definir ou tentar me explicar porque a SAUDADE é um sentimento que dói tanto? Eu entendo pelo lado espiritual várias coisas, mas a SAUDADE ainda não me convenci a necessidade da sua existência. Chamo-a de PRESENÇA DE VAZIOS...

domingo, 6 de dezembro de 2009

Pure music!!!!
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