Fragmento
Resposta Ao Espelho, de Cecília Meireles
Eu não tinha essa desesperança
e muito menos o descredito do futuro.
Os meu olhos não eram cegos como os das estátuas
e sonhava com setembros e primaveras.
O meu rosto não era uma máscara de palhaço
e o meu sorriso facilmente transformava-se em gargalhada.
Fui-me transformando em algo próximo a uma caricatura,
a sombra e a pó do que eu era.
E o fato de acreditar transformou-se em desespero e descaso
... e sobrou somente o medo de um futuro que tento recriar
e, as minhas iniciativas, perderam-se no tempo.
Incendiei as velas dos meus navios
que já não possuem cais nem porto.
Outras naus perderam-se nas fúrias das minhas tempestades.
Deixei-me levar por calmarias e quando os ventos sopravam
trouxeram-me areias de vidas desérticas.
Perdi todo o movimento e disposição que me faziam caminhar,
sempre e sempre suplantando obstáculos.
Esqueci como se vive.
Exauriram-se minhas forças internas que comandam a vida.
Estou desistente de mim, tal como estrangeiro dessas terras a qual pertenço.
Vivo dias e noites sem céu, sem norte, sem sol e sem sal.
Um gosto amargo e de sangue...
Sou feliz quando durmo. Momentaneamente feliz, mesmo quando acordo chorando.
(Talvez somente os sonhos sejam reais)
Não reconheço a minha face em nenhum espelho
pois estes refletem unicamente o meu interior.
Em que trecho da linha da vida esqueci de viver?
Esse foi o nome que resolvi dar ao meu Blog. Exatamente aqui, me desnudo de alguma maneira, seja através dos meus textos ou poemas, de algumas coisas que li e que me tocam. Gosto de escrever ocasionalmente. Não sou poeta, não sou escritor, ensaísta ou mestre em palavras. Sinto, vivo, contemplo, penso, e finalmente, sou apenas sou: Marco.
quinta-feira, 13 de março de 2008
Depois da imensa vontade de escrever, hoje, li um artigo, que transcrevo abaixo sobre exatamente aquilo que estou sentindo. A minha história é mais ou menos essa. Não considero uma simples coincidência. As coisas possuem uma enorme força quando realmente estão prontas para acontecer (Caetano Veloso já afirmou isso). Transcrevo o que li, com os créditos devidos.
Conta-se que uma tigresa grávida, ao atacar algumas cabras que pastavam, não resistiu ao esforço e pariu. Exaurida pela luta e pelo parto morreu, deixando sua pequena cria entre estes animais. Assim o tigre cresceu e, sem uma outra referência, imaginou-se cabra, aprendendo aos poucos a alimentar-se de capim e até mesmo a balir. Tempos depois, já quase adulto, o rebanho de cabras entre as quais vivia foi novamente assaltado por um tigre e este, vendo um igual entre os animais que atacava, o acolheu. Surpreendeu-o, mostrando que o imperativo de sua vida era ser tigre e não cabra, rugir e não balir, descobrindo o gosto de sangue, alimentar-se de carne e não mais pastar. Sua obra educativa não foi fácil, acomodado a sua condição de cabra, pastando e balindo, custou um bocado para que o pequeno animal descobrisse sua identidade, sua força e em seu nome se fizesse tigre verdadeiro, mas, ao assim se transformar, descobriu-se e passou a olhar com desprezo e sem saudades sua tímida vida anterior.
Celso Antunes in: abceducatio, ano 6, fevereiro 05. Publicação mensal da Editora Criarp Ltda - Redação, Administração e Publicidade - São Paulo - SP.
"Por sete séculos eu fui / escrava(o) devotada(o) de um Mandarim. Trançava de ouro seu pagodes / seus bigodes / regava as suas flores de cristal em seu jardim...." Uma música de Cida Moreira. Rompi com amarras da minha escravidão. Os mistérios envolvem os relacionamentos (certamente doentios). Há muito não sinto minha alma tão livre e com tanta vontade de viver. Rompendo amarras do cais, içando minhas velas, selando meu cavalo (que na verdade é um tigre). Sinto minhas asas começarem a abrir e não são asas de penas coladas com cera. São sangüíneas. Posso me queimar com o calor do sol, mas não despencarei do alto pela fragilidade das asas tal como Ícaro. Romperam-se os grilhões. A Liberdade é mais que um fato. Agora é real. E nada mais me prende ou assusta. Estou renascendo, com um pequeno detalhe: Sábio.
Em alguns momentos a vontade de escrever torna-se forte como um impulso, incapaz de ser controlado. Há uma ânsia incoercível, como a hora do parto, quando já não é mais possível carregar no ventre aquilo que medra. Viver, escrever em um impulso, sem fazer correções sejam elas quais forem e simplesmente deixar correr a pena (ou o teclado, para ficar uma coisa mais atual) e simplesmente escrever. Há um momento de pausa, para estruturar o pensamento e a vontade de escrever coisas loucas, aparentemente sem sentido, sem ordem e sem motivo. Escrever apenas, deixar fluir o que está escondido dentro do mais recôndito escaninho da alma. E, sem saber o que escrever, escreve-se. Será maldição ou não, porém, acho, que escrever tal como cantar e alcançar a mais agudas de todas as notas e deixar e deixar e deixar apenas que o já falado impulso permaneça.
O que posso fazer se essa vou esta vontade me toma de corpo e alma inteiro, vivenciando-me, fortificando-me me fazendo bem e feliz, mesmo que momentaneamente, nem que seja por minutos, apenas, e, mesmo sem saber sobre o que escrever apenas escrevo como vazão de um grande rio, que se desdobra em cataratas, em mangues, em águas que se conflitam em sua foz com o mar. Águas doces, águas salgadas, algas, cheiro de mar, noite de lua cheia e céus desabando estrelas. Apenas escrever, escrever e escrever.
O que posso fazer se essa vou esta vontade me toma de corpo e alma inteiro, vivenciando-me, fortificando-me me fazendo bem e feliz, mesmo que momentaneamente, nem que seja por minutos, apenas, e, mesmo sem saber sobre o que escrever apenas escrevo como vazão de um grande rio, que se desdobra em cataratas, em mangues, em águas que se conflitam em sua foz com o mar. Águas doces, águas salgadas, algas, cheiro de mar, noite de lua cheia e céus desabando estrelas. Apenas escrever, escrever e escrever.
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