Fragmento
Resposta Ao Espelho, de Cecília Meireles
Eu não tinha essa desesperança
e muito menos o descredito do futuro.
Os meu olhos não eram cegos como os das estátuas
e sonhava com setembros e primaveras.
O meu rosto não era uma máscara de palhaço
e o meu sorriso facilmente transformava-se em gargalhada.
Fui-me transformando em algo próximo a uma caricatura,
a sombra e a pó do que eu era.
E o fato de acreditar transformou-se em desespero e descaso
... e sobrou somente o medo de um futuro que tento recriar
e, as minhas iniciativas, perderam-se no tempo.
Incendiei as velas dos meus navios
que já não possuem cais nem porto.
Outras naus perderam-se nas fúrias das minhas tempestades.
Deixei-me levar por calmarias e quando os ventos sopravam
trouxeram-me areias de vidas desérticas.
Perdi todo o movimento e disposição que me faziam caminhar,
sempre e sempre suplantando obstáculos.
Esqueci como se vive.
Exauriram-se minhas forças internas que comandam a vida.
Estou desistente de mim, tal como estrangeiro dessas terras a qual pertenço.
Vivo dias e noites sem céu, sem norte, sem sol e sem sal.
Um gosto amargo e de sangue...
Sou feliz quando durmo. Momentaneamente feliz, mesmo quando acordo chorando.
(Talvez somente os sonhos sejam reais)
Não reconheço a minha face em nenhum espelho
pois estes refletem unicamente o meu interior.
Em que trecho da linha da vida esqueci de viver?