quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Nesse calor sufocante de Dezembro, o cheiro dos resto de festas nas ruas dessa cidade, mistura-se com o odor (se é que posso chamar assim) da fritura do dendê e de urina. Asfixia pura! A falta de higiene das pessoas que parecem desconhecer a invenção do sabonete e do desodorante obriga-me a tomar Dramim! Salvador fede até a passagem do Carnaval. Só os temporais são capazes de estabelecer uma atmosfera respirável. Acho que agora vou ouvir um bom r&b com pitadas de soul de qualquer garganta poderosa de uma negra norte-americana, preferencialmente gorda e acima dos 45 anos de idade. Acompanhamento: água mineral com gás e rodelas de limão. Cigarros. Para comer: salada de pepinos, tomates, alecrim, abacaxi e presunto. Iluminação: luz baixa, levemente amarelada. Local: o suposto living da cadeia deste apartamento.

P.S.: Gostaria que Marina Lima me explicasse essa frase: "Como se a Bahia fosse somente poesia e cor...! Em tempo: Gerônimo disse "que nessa cidade todo mundo é de Oxum" Eu acho que não, visto que, essa Yabá, adora banhar-se nas águas doces paradas cristalinas (o Dique do Tororó está bem longe disso) ou nas pedras das corredeiras dos rios, perfumando-se constantemente.
Durante o período que antecede o Natal, percebo que algo de estranho pendura no ar, tal como nuvens pesadas, cor de chumbo e invisíveis. Transtornos nas ruas, gente preocupada com as compras, com as roupas para Natal e Ano Novo e ceias. Gasta-se como dizia Júlia, gasta-se "desembestadamente". Cada um coloca na própria face, uma máscara - que pode ficar colada a cara, segundo Fernando Pessoa - disfarçando o eu da pura hipocrisia. Enfeitam-se árvores, janelas, sacadas, prédios, caixas eletrônicos e padarias. E esquecem o verdadeiro sentido do Natal: perguntem as crianças o que se comemora no Natal. Elas respondem: é o dia de Papai Noel "dá um monte de presentes!" O aniversariante, juntamente com as suas palavras são esquecidos. Vê-se de tudo, menos um presépio. Deseja-se felicidade, prosperidade, saúde, tudo isso com um belo sorriso amarelo... Chego a triste constatação, (sou ecumênico ou outra categoria próxima) que sou mais cristão que muitos que andam por aí. Católicos e judeus ainda choram pelas crianças da hecatombe quase genocídio promovida por Herodes e pela traição de Judas. Mas agora eu pergunto: e as crianças que estão nas ruas? Será que possuímos uma leve fatia da perversidade de Herodes? Como sempre digo: Cristo só teve um Judas em toda a sua existência. Nós, somos os Judas um do outro. Durante nosso "lifetime" quantos Judas beijarão a nossa face?
Mais uma lembrança. Como estudante na UCSal, tive colegas fantásticos e, nessa última semana, passando por uma situação vexatória, voltei ao passado, a um sábado na Biblioteca Central, onde tinha marcado com uma colega de outro semestre, um estudo sobre História da América. No livro, um trecho muito interessante de um chefe indígena americano (não me pergunte a etnia ou nação e muito menos o nome dele) saiu-se com uma frase de efeito: "Os civilizados estão chegando - é preciso pacificá-los!" Resolvi bloggar isto porque ultimamente, as hostilidades entre os meus vizinhos estão começando a incomodar. Uma espécie de cizânia* parece ter caído sobre o nosso condomínio. Resta-me permanecer nos recônditos bastidores da minha insignificância... Afinal, alguém já disse uma vez: "Pessoas burras falam sobre a vida dos outros. Pessoas medíocres falam de bens que não podem consumir. E as pessoas inteligentes falam sobre cultura, estruturalismos e idéias. Finalizado, já que nada é perfeito, é melhor pertencer ao terceiro grupo. Neurônios são valiosos...

* Leia Asterix. Segundo dicionários: falta de harmonia; desavença, rixa, discórdia. Situação onde não é possível o entendimento entre as partes envolvidas.