sexta-feira, 25 de julho de 2008

Para R.

Se os poetas te conhecessem,
serias tu, ninfa ou deusa
a qual eles entoariam louvores
e criariam odes.

Grande pitonisa
tal como uma vestal em lilás
renascida.

Oh Senhora, dona das profecias e vaticínios
Sentencia-me com todo o seu poder
a rendição da minha alma
que se encontra
infinitamente perdida.
Impressiona-me a energia de certas pessoas que conseguem ter uma relação tão amistosa com a vida. Todos tem problemas, isso eu sei. Mas todos vão levando, caindo e levantando, enquanto eu, agora, já não me levanto mais e arrasto-me em direção contrária ao que eu gostaria de fazer. Porque tanto sono durante o dia? porque tanta atividade durante a noite? Meu "fuso horário" corresponde ao do Japão e Oriente distante.

... segundo os sábios do Egito Antigo, a alma habitava no coração. Acho que eles tinham razão. Quando as coisas não vão indo bem, o local onde dói no corpo é no peito, no lado esquerdo. Não tenho expressão para definir "esse cheio de vazio."
Noite II

É...
a forte chuva que desabou no final da tarde
tingiu tudo de cinza:
céu, mar, ar.
Afugentou as aves
silenciou os cachorros
aprisionou as pessoas em suas casas.

Restou apenas o asfalto espelhado,
o brilho dos faróis dos carros,
as ruas vazias
e eu
aqui caminhando
só.
Distância

Existe um oceano
e um continente que nos separa.
Existe somente a impossibilidade de um reencontro.
Resta apenas uma foto,
as lembranças de quinze dias de convívio,
as fachadas das igrejas barrocas,
as ruas estreitas do centro histórico.
(Locais onde estivemos felizes)

Fomos corajosos: dissemos não, de imediato.
Amar-nos-iamos
Fomos inteligentes: dissemos não, de imediato

Temos muitas águas (nem sempre azuis)
temos muitas terras (nem sempre fecundas)
a nos separar.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Ingeri além da quantidade necessária de medicamentos. Estou sentindo naúseas que não são maiores que o mal estar existencial. Sinto frio. Deve ser efeito colateral do coquetel de medicamentos. Acordei mais uma vez em cólera. Não sei o que fazer com o que tenho nas mãos. Uma vontade de desaparecer, de dar fim a todas as minhas provas de minha existência sobre a terra. Assustei mais uma vez um profissional da área. A médica responsável pela minha avaliação na Junta Médica do Planserv pareceu-me segura, aconselhou-me sobre a uma nova proposta de vida. Falei das minhas tentativas de suícidio, inclusive, que cheguei a contratar um matador de aluguel para que ele fizesse o seu trabalho. Ele considerou-me como louco e ainda me convidou para partilhar algumas cervejas com ele. Isso é uma história longa. Mostrei meus pulsos cortados, ainda com pequenos pontos. Acredito que foi a primeira vez que um profissional deste escutou uma história desse tipo. Mesmo eu pagando ele recusou-se a fazer o serviço. Tornou-se quase um amigo e apesar da sua vida, era um excelente aprendiz de História. Amava Filosofia, alguns poetas portugueses, era protetor da natureza. Faleceu, vítima de homícidio em circunstâncias que nunca foram esclarecidas. Deixou como herança três belas árvores no parque Solar Boa Vista.

terça-feira, 22 de julho de 2008

... e esse vazio, essa imensa vontade de pedir perdão não sei a quem. Porquê minha existência parece tão inútil. É preciso acreditar em algo mesmo que este algo seja tão frágil a ponto de não sustentar o peso do sentimento. É preciso dar vazão ao sentimento e que tudo isso faça sentido. Repito: a existência não me faz sentido. Vivo noites e dias sob as cortinas fechadas da minha alma. Busco o que não sei e olhando para trás só vejo as derrotas, as decepções, os dissabores, os conflitos de minha guerra interior.

... estou confuso e não quero permanecer nesse estado. Não é possível viver 24 por dia, 365 por ano, remoendo cada segundo e pensando em suicídio. Parece uma ausência de Deus ou uma força maior. Estou arquejante. Não acredito mais nos meus sonhos de outubros para uma rota ou fuga em direção a um futuro feliz. Impressiona-me a força que as pessoas possuem em querer viver enquanto espero na morte o consolo para os meus dias sem sorte. Por quê essa ausência, essa dor interior? Me sinto inútil ou descartável. O tempo, o senhor tempo, só acrescenta-me uma sabedoria amarga e um gosto de sangue. Essa ausência de fé, essa crise que não passa, essa quantidade de remédios, esse tratamento que não tem fim...

... estou fadado a fenecer em tudo em que eu tento criar e iniciar. Não consigo completar nada e o meu desespero se alimenta do meu desespero. Volto a repetir que é necessário pedir desculpas ou perdão não sei a quem, talvez a mim mesmo. A palavra que me persegue é o medo. Falta-me iniciativa para tudo. Falta-me força para praticar o ato derradeiro.

... vivo sem família. Aliás somente há pouco tempo perecebu que sempre fui só. Quando tomei conhecimento da minha orfandade essa se desdobrou em um imenso caleidoscópio de sentimentos, Tudo que junto são perdas. Sou irremediavelmente só. Acho que a maioria das pessoas tem medo de mim. Porque será que assusto tanto se eu sei que dentro de mim não existe esse monstro que parce tão visível para alguns?

... estou cansado. Estou muito cansado. Não quero passar o resto de minha vida tão sozinho. É pior que todas as dores físicas que já senti. As mutilações agora não são mais físicas. Estou carregando um peso imenso e o corpo já responde por isso. Noites longas de insônia e noites em que durmo e sou atormentado por pesadelos que se repetem durante toda a noite. Prefiro o sono profundo, induzido quando assim não recordo meus sonhos.

... pertenço ao mundo dos solitários. Inúmeras vezes permaneço calado por quase todo o dia. Não tenho ninguém para falar ou conversar, para contar sobre o filme que ví ou poder descrever um determinado trecho de uma música. Resta-me falar sozinho e a janela do quarto dos fundos, sob o olhares curisos dos gatos que me observam... as vezes, esses, os únicos olhares do dia.
O que desejo?
saber das palavras, a letra
das frases, a palavra
das páginas, o verso
dos idiomas, a idéia
das idéias, o homem.

O que desejo?
Saber dos fatos, o motivo
dos motivos, a razão
das razões, a motivação
das motivações, o ímpeto
do impeto, o anseio.

O que desejo?
Saber dos verbos, Deus
dos deuses, a invenção
das invenções, o medo
dos medos, a força
da força, a fúria.

O que desejo?
Saber do caos, a treva
das trevas, a luz
da luz, o que cega
da escuridão...
saber de mim.

Rebeca Serra