quinta-feira, 28 de junho de 2007

...
e o meu grito rompe vales
escala montanhas
ecoa em abismos
debate-se nos espaços abertos
desdobra-se nas ruas
dilacera-se nos céus
arrasta-se pela terra
sangra-me a garganta
e vem morrer no mar
no primeiro cantar
de um passáro na aurora.
...
Walking In The Rain

Ando sob a chuva fina
automóveis deslizam
no espelho negro do alfalto
e os faróis mostram
a dança das gotas d'águas
rabiscando o ar.

Couro preto e jeans,
vodka, conhaque, cigarros.
Música alta na cabeça
enquanto caminho,
sob a a chuva fina.

Grandes cidades
corações pequenos
com razões desconhecidas
enquanto caminho
sob a chuva fina.

Promessas fáceis
abordagens suspeitas
mais drinks fortes
enquanto caminho
sob a chuva fina.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Sem ponto final

O nosso encontro,
a aflição da hora,
o que vestir?
Que perfume usar?
(será que eu não exagerei na dose?)
A ansiedade...
suas ligações cobrando precisão britânica.
O bar, os cheiros de festa,
seus amigos.
O que falaremos?
De nosso passado ou do que iremos fazer,
desde momento em diante,
caminhando juntos
para o não sabemos onde.
As nossas neuroses,
reunidas sob o mesmo teto,
ou cercadas pelo mesmo muro,
o nosso futuro...
O que estará reservado para nós?
Será covardia o medo de ser feliz?
E falar verdades intrusivas,
desesperar pela ausência do outro.
Eu acho que tudo está por um triz.
E essa avalanche de palavras disfarçadas
medidas, comedidas
e o medo
o medo de não ser compreendido.
Desviar o olhar para não parecer inquisidor,
castrador.
Esse seu relógio,
com a pulseira danificada
chama tanto a minha atenção!
Provoca confusão,
desvia o rumo da conversa,
provoca risos e esperanças.
Vamos quebrar a formalidade.
Será a minha mente perversa?
Vamos ser mais moleques,
despir essas caras de trapaça,
(pelo menos me abraça!)
e vamos dar chance a esse sentimento
diluído, esquisito, antipático,
amorfo, indescritível
que insistimos em negar
e penamos por carregar
que funciona como droga
que fere e mata,
condena e vicia
tanto pela abstinência
como pelo excesso,
mas que nós não conseguimos viver sem
porque é a nossa verdade
(é a nossa falta de humildade?)
e que nos redime
da nossa servidão
e do nosso crime sem perdão.
Você sabe que detesto
rimas fáceis,
mas nos nos entreguemos,
desenfreadamente,
a nossa paixão.
O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida - e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom - como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar-se inundar pela alegria aos poucos - pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele e nós.

O nascimento do prazer - Clarice Lispector
O poeta não quer destruir centros urbanos, ele apenas vislumbra além dos edifícios e monumentos as planícies verdejantes da alma.
O poeta não tem solução para a dor e a fome humanas, ele apenas traz lirismo e dignidade à condição humana.
Porque então arracanrem seus olhos e mutilarem suas esperanças?

Angela Roro
Meus pesadelos não são pesadelos, são alucinações. Sonhei o seguinte: Alguém bate à porta. Levanto-me do sofá para atender. Abro a porta e deparo-me com uma figura mitológica bem conhecida: o Minotauro. Ele toma as minhas mãos e me entrega uma caixa de madeira ricamente trabalhada, com um símbolo chamuscado que lembra a letra Omega, ao tempo em que diz: "Guarde isso para mim.Virei buscá-la amanhã, no final da tarde." Fico mudo, com os cabelos mais que em pé, enquanto o Minotauro, desaparece, envolto por uma fumaça azul! O que mais me intrigou e acredito que também a vocês: a voz do Minotauro era igualzinha a voz do Cid Moreira.
Pelo Messenger um amigo conta da traição que sofreu por acreditar em amar. A princípio, a raiva, o desgosto e o gosto amargo do dissabor de saber que por tanto tempo foi usado, vítima de um jogo, em um triângulo amoroso, onde, os outros dois vértices divertiam-se com a sua ingenuidade e na sua imensa capacidade de amar e tentar fazer a quem se ama feliz. Caetano Veloso disse que "o amor escraviza, mas é a única libertação." Elis Regina, interpretando tão visceralmente no álbum Transversal do Tempo a canção "Cão sem dono" - de Paulo César Pinheiro & Sueli Costa, e ainda, no mesmo álbum "Meio termo" - de Cacaso & Lourenço Beata, mostra ou melhor, explode como um vulcão, a dor, a imensa dor de quem busca coisas verdadeiras em um mundo tão falso, cheio de aparências e superficialidades: "...mais uma vez, mais de uma vez, quase que fui feliz..." porque "a barra do amor é que ele é meio ermo, a barra da morte, é que ela não tem meio termo..." Pergunto: o que é a vida ou o que resta dela, se passarmos por ela sem a possibilidade de conhecer aquilo que a faz tomar sentido?
Qual o nome ou como poderia ser chamada a sensação nostálgica, dolorida, amorfa, insondável, desconfortável, mística de se ter lembranças de uma coisa que nunca aconteceu ou existiu? Ultimamente ando com saudades de um eu estranho a mim.
Balada para um anjo negro

Que eternamente seja considerado
como maldita desgraça e malfado
a noite de prazer condenado
e pútreo útero que fui gerado.

Desde o gênese, esperma amaldiçoado
como um filho de Caim, renegado
por vocês supostamente amado
como herança, este meu postulado.

A tantos causei e provoco desagrado
mas sempre fingindo e fugindo
por parias criado, mantido calado
para depois ser escravo dominado.

Quanto ódio agora, portanto, desregrado
um passado antigo e recente plantado
mergulho, passeio e me faço degredado
sendo hoje e sempre demônio transfigurado.
(a Charles Baudelaire)
Quando consigo dormir tenho pesadelos terríveis. O último: sonhei que havia um cadáver (bem morto, mortíssimo) sob a minha cama em avançado estado de decomposição. Quando acordei, com o coração aniquilado e sem ritmo, ainda estava sentindo o pavoroso mau cheiro... Fui ao banheiro, lavei o rosto, andei pela sala a procura de cigarros. Fumo. Mãos tremulas. Acrescento: o cadáver, semi decomposto, sob a minha cama era o meu próprio cadáver...