sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Nereida
E estando tão atarefada com o trabalho doméstico e com os gritos das crianças, lembrou que não seria mais possível depositar o dinheiro no caixa eletrônico. Resolveu ir a padaria. Enquanto se penteava, dava ordens a empregada: Prepare para o jantar arroz com passas e castanhas, filé de peito de frango e uma salada de legumes crus.

Perfumou-se levemente, pegou a bolsa, as chaves do carro. No elevador, aquela sensação de perda. Já na portaria achou melhor caminhar. Deixaria o carro na garagem, pois, afinal, uma caminhada faria bem. Andando pelo calçadão, notou, pela primeira vez, ao longe, quase que no horizonte, um minúsculo ponto. Intrigada, sentou-se na balaustrada de cimento, próximo ao vendedor de água de coco. Pouco a pouco o que era um minúsculo ponto, põe-se delineando melhor. Era alguém nadando. Levantou-se, desceu até a praia, descalçou-se e pisando na areia fofa encaminhou-se até a beira do mar.

Novamente aquela sensação... O sol ainda estava quente. Molhou os pés. Foi neste momento que percebeu uma imensa cauda de peixe, em frêmito, debatendo-se na arrebentação. Por um instante, pensou que estivesse louca. Foi então que compreendeu tudo e, despindo-se, mergulhou. Percebeu que a cada braçada, ganhava mais impulso. Não sabia que nadava tão bem. Refez-se, pôs a cabeça para o alto, entoou uma antiga melodia esquecida por séculos, ergueu os braços... Não era mais a mesma. Voltou a sua antiga forma e essência prosseguiu em direção ao sol, ao lado do tritão.